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Grande Entrevista com Conceição Queiroz



"Em Cabo Verde senti que fiz serviço público"

Conceição Queiróz é uma das caras e vozes que dão vida ao jornalismo em Portugal.

Na TVI, a jornalista moçambicana tenta sempre abordar temas de cariz social, relacionados especialmente com a saúde, como pudemos ver no livro "Serviço de Urgência" que nasceu de uma reportagem no Hospital Santa Maria em Lisboa.

O LA foi aos estúdios do canal de televisão conhecer a menina que já foi "revoltada" e que hoje simplesmente tenta minorar os problemas da sociedade através da sua profissão.

 
Entrevista Lusoafrica com Conceição Queiróz 


Lusoafrica: Quando saiu de Moçambique e que lembranças tem desse tempo?

Conceição Queiróz: Tinha 12 anos quando saí do meu país. Lembro-me que os meus pais cultivavam bastante o diálogo, por isso a televisão nunca foi opção. Todas as outras casas tinham uma, mas nós não.

LA: Como era a Conceição desse tempo?

CQ: Quando era mais nova era mais revoltada. Não suportava injustiças, especialmente relativas ao racismo. Defendia as senhoras que iam vender peixe e eram maltradas quando entravam no autocarro com os seus cestos.

LA: De quem herdou essa força?

CQ: Da minha mãe, era uma mulher de uma convicção notável, nunca se deixou vergar. Hoje sou uma pessoa que não dorme enquanto não esclarecer as coisas.

LA: E o que a fez enveredar pelo jornalismo?

CQ: Quando decidi que queria ser jornalista o meu sonho era ver um texto meu publicado numa revista. Foi isso que me fez escolher esta profissão.

 

LA: Foi difícil afirmar-se como jornalista sendo africana?

CQ: Já é difícil ser jornalista, como africana acho que temos que trabalhar o dobro.

 

LA: Como tem sido o percurso?

CQ: Sou jornalista há 14 anos e nunca me desliguei, mesmo quando dei aulas (de português). Vim para a TVI e estive dois anos no programa da Cristina Caras Lindas e quando me apercebi que o programa ia chegar ao fim comecei a "chatear" a Manuela que me deu a oportunidade. Esforcei-me ao máximo, passei no teste que a Manuela me propôs e cá estou.

 

LA: Quem são os seus modelos no jornalismo?

CQ: Na apresentação é a Manuela Moura Guedes, que antes de mais é um ser humano, uma grande contadora de histórias. Gosto muito da Cândida Pinto e da Ana Leal, considero-as as melhores contadoras de história. Na imprensa admiro o Paulo Moura do Público.

 

LA: Pode contar-nos algumas experiências marcantes destes 14 anos?

CQ: Claro!

Podemos começar pela minha passagem pela televisão de Cabo Verde (TCV) e pela rádio de Cabo Verde também.

 

LA: Como surgiu essa oportunidade?

CQ: Fui lá férias e resolvi conhecer o país a nível do jornalismo e para sentir na pele as pressões de que tanto se fala. Comecei a fazer alguns trabalhos para o jornal A Semana, como correspondente e seis meses depois fui convidada para ser directora de informação da TCV.

 

LA: Qual foi a sua reacção?

CQ: Fiquei espantada com o convite, mas não me desliguei da reportagem que gosto tanto. Consegui equilibrar o cargo com a responsabilidade da profissão.

 

LA: Sabemos que em África é sempre diferente, às vezes até mais complicado. Como foi fazer jornalismo em Cabo Verde?

CQ: É verdade. Há muitos aspectos que diferem. Eu costumo dizer que quem trabalha na TCV trabalha em qualquer parte do mundo.

 

LA: Porquê?

CQ: Por todos os motivos e mais alguns: como a falta de cassetes, microfones que falhavam durante a entrevista, falta de monitores.

Uma infinidade de coisas que se transformavam em obstáculos exigindo muito da nossa capacidade de desenvoltura.

 

LA: Além das dificuldades técnicas que outras dificuldades encontrou?

CQ: Em Cabo Verde mostra-se o país sentado. Na altura em que lá estive posso dizer que a televisão não mostrava o verdadeiro país.

 

LA: O que é que falta à televisão cabo-verdiana?

CQ: Falta chama, falta criatividade ao jornalista, não se procura, não se investiga.

 

Apesar dos obstáculos que enfrentou, Conceição Queiróz não esqueceu as ilhas crioulas nem quebrou a ligação com o país que considera a sua segunda casa.

 

LA: A experiência em Cabo Verde valeu a pena?

CQ: Ter sido directora de informação da TCV foi uma experiência riquíssima. Como são tão poucos os jornalistas fui obrigada a fazer tudo, a passar pelo desporto, economia, política.

Cheguei a cobrir jogos de futebol, a apresentar um programa de desporto que espantou muita gente, não era normal uma mulher "aventurar-se" dessa forma. Hoje em dia as mulheres já fazem esse género de jornalismo, acho que abri caminho.

 

LA: E como era "abrir" esses caminhos?

CQ: Muitas vezes diziam-me: "Conceição bô é fastenta!!!" ( tu ês chata) Mas foi um grande desafio. Senti que fiz serviço público.

 

LA: Falando em desafios: Uma jornalista moçambicana em Cabo Verde, falava crioulo?

CQ: Apesar de estar num país em que as pessoas comunicam essencialmente em crioulo nunca me senti obrigada a falar a língua.

De início as pessoas que entrevistava pensavam que eu era cabo-verdiana e ficavam ofendidas por não falar crioulo, mas depois de perceberem que era moçambicana passaram a ser todos muito simpáticos.

Fiz muitos amigos lá e é como se fosse o meu segundo país. Sinto-me em casa quando lá vou.

 

LA: Também já passou por Angola, embora em contextos diferentes. Quais são as diferenças de um país para o outro?

CQ: Em Angola acho que é diferente. Os jornalistas são mais criativos, mais próximos da Europa.

 

LA: Criativos como?

CQ: Procuram as coisas, são mais activos, enérgicos e o povo em si tem a particularidade de transformar tudo. Apesar das dificuldades é um país onde as pessoas estão sempre a rir. Trabalham à base do optimismo, fazem piadas, são os mais bem humorados.

 

LA: Como foi fazer a reportagem sobre os meninos da Jamba?

CQ: "Os meninos da Jamba" foi a reportagem que mais me marcou. Despi a capa de jornalista e envolvi-me imenso. Aquelas crianças eram carentes de tudo.

 

LA: O que gostaria de fazer pelo jornalismo lusoafricano?

CQ: Gostava de investir na formação de jornalistas.

 

A nossa entrevistada é uma pessoa alegre, que não faz planos, não está cansada do jornalismo, pelo contrário, mantém a mesma vontade e quando lhe perguntamos como é ser um exemplo para quem está a começar agora Conceição fica sem resposta.

 

LA: Tem noção de que é uma referência para os jovens jornalistas?

CQ: A sério? Nunca me apercebi disso. Sou muito desligada, mas agora que me falas nisso é que associo a quantidade de e-mails que recebo a perguntar se posso ajudar, ou simplesmente a pedir conselhos.

 

LA: Lê todos os e-mails que lhe enviam?

CQ: Sim, leio sempre. Não estou sempre no computador, mas leio e respondo.

 

LA: Costuma ser convidada para palestras nas universidades?

CQ: Sim muitas vezes. Faço sempre um esforço para estar presente nas palestras. Participei numas jornadas de medicina, por causa do livro que escrevi.

 

Gosta de literatura, mas nem sequer esperava publicar um livro. Perdeu a mãe há alguns anos e sentiu-se sem chão e em homenagem à mulher de quem herdou a convicção e a preocupação pela saúde dedicou o seu primeiro livro: "Serviço de Urgência".



 

LA: O que a fez escrever "Serviço de Urgência"?

CQ: Nunca na minha vida pensei em escrever um livro. A minha reportagem passou no Jornal Nacional e no dia seguinte ligaram-me de uma editora.

Foi um grande desafio, passei três anos a escrevê-lo, sempre no hospital. Com o livro descobri o limite do saber da ciência, já fomos à lua mas continuamos sem poder controlar tudo (como a morte).

Descobri também o significado profundo da palavra esperança. Na urgência acreditas até à última.

 

LA: Quase todos os jornalistas que têm ligações com África escrevem sobre as suas memórias, romanceiam bastante. O seu próximo livro pode ser nesse registo?

CQ: Não me sinto tentada a escrever esse tipo de livros. A minha vida não dava um filme, quanto mais um livro.

Se continuar a escrever será neste registo, em tom de reportagem.

 

LA: A grande reportagem é o seu estilo de eleição. Qual é o seu método?

CQ: Faço sempre a abordagem a nível social. Identifico-me muito com os temas que abordo. As desigualdades sociais irritam-me muito, nem todas as pessoas têm as coisas essenciais como o acesso à saúde e à educação.

Olha que se não fosse jornalista acho que estaria numa Missão, numa ONG.

Quando estive na Jamba mineira por exemplo abdiquei de tudo o que tinha para comer e dei às crianças.

Sou apaixonada pelas histórias humanas as pessoas inspiram-me. Mesmo um criminoso, estou sempre à procura do "porquê". Tudo tem uma causa, uma razão para acontecer.

Há uma tendência para julgar o outro, muito egoísmo e ninguém se preocupa com ninguém.

 

LA: Da parte de uma grande jornalista africana que mensagem é que o LusoAfrica pode receber?

CQ: A minha relação com as máquinas é péssima mas conheço o LusoAfrica e acho bem que continuem a fazer o trabalho que têm feito.

 

 

Mayra Prata Fernandes

 

 

 

 

 

 

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